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Autora: Regina Ferreira

Professora Doutora, Escola Superior de Saúde de Santarém – Instituto Politécnico de Santarém, Portugal
Membro Integrado do Centro de Investigação em Qualidade de Vida, na área científica de Saúde Individual e Comunitária

 

Enquadramento

A obesidade infantil é um fenómeno internacional identificado como pandemia do século XXI, atualmente reforçado pela pandemia COVID-19. Interrompeu-se a rotina de milhares de crianças. O tempo de confinamento em casa, mais comida disponível, horas em frente ao écran e menos atividade física potenciam o sedentarismo e o consumo de alimentos hipercalóricos de má qualidade nutricional (DGS, 2020). As taxas de incidência de obesidade infantil duplicaram nos últimos 30 anos para crianças entre os 12 e 19 anos e quase triplicaram dos 6 aos 11 anos, atingindo uma taxa global de 17%, com maior prevalência em crianças latinas e negras (UN,2015; Berger-Jenkins et al, 2014).

A evidência científica na área da promoção da saúde em meio escolar, a inovação e a necessidade de recentrar a ação nos resultados implica desenvolver intervenções adequadas à população mais jovem. A menor qualidade de vida em crianças em idade escolar com obesidade foi identificada decorrente de experiências diárias, limitações físicas e psicossociais associadas à situação (Powell, 2018). É essencial desenvolver competências e capacitação para a tomada de decisão, com responsabilidade progressiva e autodeterminação em relação à saúde das crianças. Visa-se a construção do seu projeto de vida alinhada com a necessidade de fortalecimento da capacidade de redução e gestão de riscos para a saúde (UN, 2015). A implementação de projetos focada em contextos como a escola está em consonância com a sua valorização como espaço de ligação à família. O contexto escolar é fundamental para promover a adoção de estilos de vida saudáveis e também para a redução da mortalidade prematura por doenças não transmissíveis por meio da prevenção, tratamento e promoção da saúde mental e bem-estar (UN, 2015).

Resultados preliminares de estudo europeu Childhood Obesity Surveillance Initiative for Europe foram avaliadas 7210 crianças (48,9% raparigas e 51,1% rapazes) em 228 escolas do 1º ciclo do Ensino Básico (INSA, 2019). Na sequência da tendência invertida da prevalência de excesso de peso e obesidade infantil constata-se uma redução de 8,3% na prevalência de excesso peso infantil (37,9% para 29,6%) e de obesidade infantil de 15,3% em 2008 para 12,0% (menos 3,3%). Contudo, mantem-se o aumento da prevalência de obesidade infantil com a idade, tendo sido possível constatar que 15,3% de crianças de 8 anos tinham obesidade (das quais 5,4% obesidade severa), comparativamente com as crianças de 6 anos que apresentaram 10,8% de obesidade, das quais 2,7% apresentavam obesidade severa (Mendes et al, 2019).

A promoção da saúde no ambiente escolar alinha-se com o acesso à saúde de qualidade e segura, com desenvolvimento de intervenções adequadas às crianças/famílias promotoras de hábitos alimentares saudáveis e da prática de atividade física, assumido como contexto de excelência (DGS, 2020). É urgente intervir em fatores ligados ao estilo de vida e à forma como cada família gere o capital de saúde dos seus elementos ao longo da vida, através de opções individuais expressas no que pode ser entendido como estilo de vida (DGS, 2013). Considera-se fundamental intervir junto de gerações jovens a alcançar a plenitude do seu potencial de saúde, melhorando o nível de literacia em saúde (Reis et al, 2019a; Reis et al, 2019b).

Este projeto foca-se numa abordagem da saúde no ciclo de vida, especificamente no crescer em segurança perspetivando a juventude à procura de um futuro saudável e integra duas áreas específicas: alimentação e prática da atividade física.

Um estudo prévio foi realizado, por parte da atual equipa de investigadores, com crianças de um Agrupamento de Escolas do Ribatejo e com a colaboração de enfermeiros da Unidade de Cuidados na Comunidade. O estudo mostrou que das 210 crianças entre os 3 e 10 anos, 39,9% estavam acima do peso e 49,9% eram obesas. Constatou-se que apenas 13% das crianças do 1º ciclo realizavam, diariamente, o pequeno-almoço completo (Godinho et al, 2018).

Na sequência deste estudo, a proposta atual baseia-se nos contextos mencionados e constitui também uma resposta às políticas de saúde. A priorização de intervenções de caráter de continuidade pedagogicamente adequadas ao nível de educação e baseadas em evidência científica é identificada como fundamental (DGS, 2015). Seleciona-se como grupo-alvo os alunos do 1º ciclo do referido agrupamento. São objetivos: capacitar os alunos do 1º ciclo para a tomada de decisão responsável na adoção de uma alimentação saudável e na prática de atividade física, visando a construção do seu projeto de vida; caraterizar a população alvo a nível da alimentação saudável e da prática de atividade física; desenvolver um programa de intervenção na criança/família ao nível da alimentação saudável e da prática de atividade física; avaliar o impacto do programa de intervenção na construção do projeto de vida das crianças no âmbito da alimentação saudável e da prática de atividade física.

 

Metodologia

Pretende-se desenvolver um projeto de investigação-ação participativa, de forma sequencial e cíclica de diagnóstico, planeamento, ação e reflexão (Dias e Gama, 2014; Godinho et al, 2018), através do qual se busca intervir com o grupo-alvo de forma inovadora. Privilegia-se uma abordagem colaborativa de envolvimento da comunidade educativa, profissionais de saúde e académicos, na produção de evidências e garantindo a continuidade do primeiro para o segundo ciclo do ensino básico, integrando as diferentes experiências e perspetivas.

Esta metodologia orienta para uma abordagem sistémica dos fenómenos em estudo, definindo o problema a partir da prática e pretendendo voltar à prática para a resolução/transformação do que foi identificado numa primeira fase do estudo (Godinho et al, 2018). Integra um conjunto de fases, que se desenvolvem de forma contínua numa sequência em espiral, desde o diagnóstico, planificação, ação e reflexão, implicando a realização de tantos ciclos quanto os necessários para alcançar as mudanças pretendidas ou a melhoria dos resultados (Springett, 2011).

A metodologia de investigação-ação tem na sua base valores democráticos e igualitários, moralmente, envolve diferentes pessoas com diferentes valores, é inclusiva e relacional, pressupõe diálogo, envolvimento dos participantes; é um processo colaborativo, que ocorre em contextos sociais e educativos (família, escola, unidades de saúde) e envolve outras pessoas, direta ou indiretamente em todas as etapas do processo de pesquisa (McNiff, 2017). Todos os participantes são agentes, não meramente destinatários ou espectadores. Com esta metodologia desenvolvem-se ciclos de ação e reflexão: observar, refletir, agir, avaliar, modificar e mover-se em novas direções (McNiff, 2017). Considerando as perspetivas metodológicas, pela sua complementaridade na concretização da metodologia de investigação ação-reflexão adotam-se as seguintes etapas: diagnóstico, planeamento, intervenção e avaliação/reflexão.

População alvo – alunos do 1º ciclo de um Agrupamento de Escolas do Ribatejo.
Critérios de inclusão – aceitarem participar no estudo.
Critérios de exclusão – crianças que vivam em residências coletivas/institucionalizados, que não falem português ou com capacidades físicas cognitivas diminuídas que impeçam a participação.
Instrumento de colheita de dados – Questionário integrando o Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física 2015-2016 (Lopes et al, 2017), para o grupo etário dos 6 aos 9 anos para o qual se solicita o consentimento informado aos pais/encarregados de educação.

De referir que o projeto já mereceu o parecer positivo da Comissão de ética da Região de Saúde.

 

 

Resultados esperados

Pretende-se desenvolver um programa de intervenção ao nível da alimentação saudável e da prática de atividade física. A conceção do programa de intervenção decorre da caracterização da população alvo a nível da alimentação saudável e da prática da atividade física, que permitirá a identificação de prioridades de intervenção. Partindo da identificação das prioridades, definem-se indicadores para o programa de Intervenção de saúde no âmbito das áreas referidas, visando a construção do projeto de vida dos alunos do 1º ciclo. A construção do programa de intervenção terá ainda por base as evidências e orientações da Direção Geral da Saúde (DGS): programa nacional de saúde escolar, programa nacional para a promoção da alimentação saudável, plano de ação para a literacia em saúde, programa nacional para a promoção da atividade física e do referencial de educação para a saúde decorrente da parceria com a DGS e a Direção Geral da Educação (DGS, 2015; DGS, 2017a; DGS, 2019; DGS, 2017b).

Pressupõe-se uma intervenção que englobe a criança/família, a comunidade educativa e equipa de investigadores numa perspetiva socio ecológica, dirigida para os seis eixos estratégicos do programa de saúde escolar: capacitação, ambiente escolar e saúde, condições de saúde, qualidade inovação, formação e investigação em saúde escolar e parcerias, adequada às características da população em estudo e do meio ambiente onde está inserida.

A implementação do programa de intervenção decorre com a participação da Unidade de Cuidados na Comunidade, Agrupamento de Escolas e também com a colaboração do município. O envolvimento de todos os parceiros da equipa multidisciplinar numa relação colaborativa torna-se fundamental para a articulação efetiva no contexto comunitário em que o projeto se desenvolve e é essencial para atingir os objetivos deste projeto. Tem-se identificado que a implementação de estratégias multidisciplinares, apresentam resultados de grande efetividade pela maior proximidade entre os diferentes participantes do estudo, o que se traduz em ganhos em saúde (Sousa, et al, 2020).

A metodologia de investigação-ação na fase de reflexão/avaliação, a par da monitorização de todo o processo, revela-se essencial para a introdução de mudanças e promotoras de benefícios, para tal importa avaliar o impacto do programa de intervenção na construção do projeto de vida das crianças no âmbito da alimentação saudável e da prática de atividade física.

O projeto desenvolve-se em sequência, com recurso a ação e reflexão. Com a avaliação do impacto da intervenção perspetiva-se caminhar para a fase de “Move-in new direction” na área da alimentação saudável e da prática de atividade física por parte das crianças alvo do estudo e que se possam constituir como embaixadores para a continuidade do programa de intervenção por meio da divulgação, conscientização e motivação dos seus pares nomeadamente na comunidade escolar.

 

 

Conclusão

Pretende-se maximizar o crescimento e desenvolvimento da criança e família melhorando o seu nível de literacia em saúde. O caráter de inovação deste projeto decorre do envolvimento precoce dos alunos em projetos de investigação, construídos a partir do real, com recurso a metodologias ativas, bem como a interdisciplinaridade da equipa, no âmbito das ciências da saúde.

As crianças abrangidas pelo projeto, encontram-se num momento privilegiado para a construção do seu projeto de vida, enfatizando-se a literacia em saúde como essencial numa intervenção cada vez mais precoce na prevenção da obesidade infantil.

 

Artigo publicado na Newsletter de abril de 2021 do CIEQV